Hoje eu vou discutir na terapia sobre as minhas amizades.
Eu afasto as pessoas ou lanço uma espécie de feitiço (e por isso não sou bruxa à toa) que ou elas se transformam em algo que não eram, ou somem da minha vida sem querer deixar rastro.
Eu sou analítica, fato.
Sou espiritualista, fato.
Acredito na evolução do espírito, acredito na reencarnação como forma de atingir a perfeição; onde se expurga o mal causado, se paga o preço.
Eu sei bem quais são meus defeitos e aliás, nunca tentei escondê-los de ninguém. A parte mau-caráter do olho junto é parelha comigo.
E essa sinceridade toda, é muito bacana virtualmente, é muito hype de longe, mas o quanto se consegue conviver de perto com isso? Quanto tempo é possível?
Eu imagino que meu discurso, metendo o malho em mim mesma, me analisando em público seja altamente sedutor praqueles imaturos de plantão, ou pra gente mal resolvida. Afinal, não é todo dia que se lê por aí gente fazendo mea culpa de seus pecados assim, à luz do dia. Muito pelo contrário. No mundo virtual, todo mundo quer ser bacana, lindo, chique de doer.
Só que dentro da minha vida, quando eu digo q minha casa parece casa de maluco, é realmente isso que eu quero dizer.
Quando eu digo que tô dura, eu realmente estou e principalmente quando eu digo que não tô a fim, não estou fazendo charme.
Então a real, é que as pessoas vivem procurando em mim aquela mãe e aquele bom coração que encontram no trato com os meus filhos. Só que não vão encontrar, porque eu não sou essa pessoa nem comigo mesma.
Eu me ponho sempre no final da fila.
Eu sou a que come em penúltimo ou em último.
Se não der pra tomar banho agora e ficar linda primeiro, eu faço um resumão, ainda que o calor esteja de matar, porque meus filhos vêm primeiro!
Eu conto centavos, porque se o sistema monetário brasileiro os inventou, então são para serem usados, de maneira que qualquer 38 centavos que sobrem, já representa meu pãozinho de segunda!
E absolutamente, eu tenho palavra. Posso demorar um tempo prometendo, porque geralmente é algo que não quero fazer, mas eu cumpro mais cedo ou mais tarde.
De maneira que conviver com alguém que vai te falar a verdade, mesmo que doa; alguém que conta centavos; alguém que não vai passar a mão na sua cabeça; que invariavelmente vai apontar seus defeitos quando o q vc quer é um colo ou uma alisadinha, é por demais insuportável eu diria.
Já perdi duas amizades importantes pra mim.
Uma era maluca de pedra, mas eu encontrava algum sentido nela.
Primeiro ela vacilou feio comigo, se afastou, eu sofri e por fim, veio me pedir perdão por ter sido tão escrota. Foi a primeira vez que eu perdoei alguém de coração, na vida. Acho q nem aos meus pais eu consegui perdoar assim como foi com ela. E o que ela fez? Vacilou de novo!
Ok. Essa vacilada talvez não seja culpa dela totalmente - odeio a palavra culpa, mas enfim... - acho q a nossa amizade se encontrava exatamente naquele ponto crucial lá do parágrafo de cima! Ela vinha com suas lamúrias, eu suspirava de tédio, porque sabia q a mudança estava nas mãos dela, ela continuava a reclamar da vida, eu mais uma vez suspirava pensando: "Afff! Quando será que ela vai mudar de atitude e se coçar?"
Às vezes eu perdia a paciência e propunha mudarmos de assunto ou em outras eu perdia a paciência e com meu dedo acusador, jogava o monte de merda q acontecia na vida dela a cargo de suas atitudes... ou em outras vezes, eu dizia q não queria ouvir, porque ela se recusava a fazer diferente e isso estava me cansando.
Que merda de amiga eu sou afinal?
Então ela desapareceu da minha vida, por muito provavelmente não aguentar a pressão de estar com alguém tão cruel ao lado.
Aí veio outra, muito mais nova que a primeira, que vendia uma imagem de seriedade, de menina legal, madura e tals. Ela era bem ajuizada pra muitas coisas. Só que a gente se apressa em concluir sobre as pessoas, ou elas mesmas estão tão ávidas por estabelecer um feedback, tachando aquilo de amizade, que vc se vê na obrigação de vestir o personagem só pra não fazer desfeita. A-hã.
Não adianta, eu não digo que amo em pouco tempo de convivência, muito menos chamo de amiiiiiga. O fato de andar do lado de alguém, de sair junto, ou ligar pra vc com certa frequência, não nos faz as melhores amigas de infância. A merda é que neguinho já acha q isso é amizade e sai explanando por aí... Amizade leva tempo!
E então, digamos, a "amizade" se estendeu e eu deixei rolar. E quando eu vi, eu estava torcendo por ela, eu estava ajudando, eu estava curtindo e acreditando na amizade, mesmo com a minha sobrancelha direita levemente levantada, porque ela só costuma baixar (ultimamente), com pelo menos mais de 5 anos de amizade sem traumas (isso não exclui brigas e desentendimentos tá? Amizade tem isso).
Só que aí, rolou o quê? A porra da proximidade.
E essa proximidade exacerbou os defeitos do outro, muito além do que eu esperava.
Tudo que não aparecia à distância, começou a vir à tona. Defeitos esses, muito parecidos com o da outra amiga. As reclamações sem fim e sem sentido, a falta de gratidão com a própria vida, o vazio e falta de amor-próprio que gerava mais reclamações ainda e "ai tadinha de mim", que de tadinha não tem nada. Porque somos fruto de nossas escolhas, é ou não é?
Daí que eu comecei a cair naquela esparrela. DRs, esporros, silêncio, dedo acusador, falta de paciência, meu saco enchendo, vontade de sumir toda vez q ela estava por perto e por fim, depois de todos os avisos, das conversas e alertas, por fim EU me afastei.
E noto que ela sofre. Dessa vez, ela sofre.
Poxa, a merda é conviver sabendo que ela não está feliz, pior não está entendendo o por q de eu ter agido assim; porque talvez ainda não tenha entendimento para admitir de coração (não da boca pra fora como costuma fazer com seus inúmeros pedidos de desculpa) que ela é responsável por tudo de bom ou de ruim que acontece com ela.
Verdade? Eu não queria que fosse assim.
Eu estava torcendo tanto para que não fosse assim. Eu queria muito que ela fosse respeitada pela equipe, por todos, queria q ela tivesse postura e não se comportasse como se estivesse na própria casa, sem a menor noção. Que ela não desistisse das coisas que planeja no meio para depois pôr a culpa no universo ou em fatores externos...
Por outro lado, o meu afastamento é o remédio ruim, que mais cedo ou mais tarde ela teria de tomar.
Sabe quando sua mãe avisa a vida inteira que vc vai se foder e vc não ouve, dá de ombros? Pois então! É fato que sua mãe tava certa. Só que vc não ouviu...
Não, não estou feliz!
Lá no fundinho, estou me sentindo uma porra de amiga de merda, apesar de aliviada com o afastamento. Meio que isso. Me sinto frustrada também, principalmente por saber que essa, gostava verdadeiramente de mim. Não um gostar sadio claro, daqueles q te deixam à vontade, também tinha isso... Mas um gostar que sufoca, daquelas amizades que só se vê aos 11 anos, quando a gente é sustentado e não tem nada pra fazer da vida; q divide tudo com a outra, q quer fazer tudo só se a outra estiver, q se bobear, se veste igual e frequenta sempre os mesmos lugares.
Não, minha vida não comporta mais isso, não tenho tempo, não tenho mais idade nem saúde, além do que, isso me dá agonia. Parece q estão roubando minha essência. Acho q ninguém no mundo de hoje suporta isso.
E escrevendo isso, acho q não tinha me dado conta q nunca havia dito isso a ela.
Bom, não quero mais falar. Agora é tarde, Inês é morta.
Que Deus me perdoe então.

