
Anabel decidira largar a vida.
Foi praquela casa aos 14 anos, depois do estupro pelas mãos do padastro e o descrédito da mãe.
Se sentia completamente só e desamparada, quando foi levada pelas mãos do padrinho até aquela casa de cortesãs.
Ela pensou de fato que tudo estava perdido, mas não. Aquilo era apenas o começo de uma vida de alegrias.
Alegria essa que desde a infância nunca conhecera.
Anabel era fransina, cabelinhos ralos, grandes olhos verdes e uma boca bastante carnuda que em nada combinava com seu corpo miúdo.
Filha de única de uma família de quatro homens. Os meninos costumavam tratá-la como igual, já que nem era a mais nova, nem a mais velha.
Quando brincavam não viam muita diferença entre os sexos. A tal diferença começou a ser notada depois dos onze anos, quando as mudanças no físico começaram a aparecer.
A mãe era chegada na bebida, nem um pouco diferente do padastro, que exagerava na dose.
Os meninos faziam bicos na rua, vendendo quinquilharias, engraxando sapatos alheios e sustentando o vício dos "pais" e ela se sentia aparte daquele mundo sujo.
Ela e o padrasto não se bicavam. Anabel conseguia enxergar maldada naquele olhar. Não via na união de sua mãe uma união de amor, mas de uma afinidade viciante por conta da bebedeira de ambos.
As brigas e maus tratos eram comuns naquela casa, principalmente quando o dinheiro para a bebida andava escasso.
Logo, numa atitude de vingança e desvario, aquele homem vil tapara-lhe a boca e puxara-lhe os cabelos ralinhos por baixo do lençol rasgadinho que cobria Anabel na entrevéspera de seu aniversário.
Ele ria, com aquele bafo de cachaça, ele ria e escarnecia dela, dizendo ser seu presente de anviersário adiantado.
A menina dormia de bruços e nem teve tempo de sentir o peso do corpo daquele Abel monstruoso. O incômodo do peso, transformou-se em dor lancinante, quando sentiu algo penetrando primeiro seu ânus. De dor, Anabel desmaiou e o bruto ficou ali durante alguma tempo ainda intercalando entre o ânus e a vagina dela. Finalmente ele parou, ao se dar conta de que o lençol da cama banhara-se em sangue. Assim ele parou e voltou p/ cama ao lado daquela que ansiava por seus toques, mesmo que fartos de brutalidade. Cristina sim. Essa gostava daquele jeito de ser possuída.
Mas a pobre Anabel...
Envergonhada, humilhada e ferida nem sabia o que era aquilo.
Voltou a si com dores pelo corpo e na alma; e por fim, pela injúria. Sua mãe, Dona Cristina pegara-lhe pelo braço, ainda se recobrando do susto e levara-lhe para casa do padrinho. Este por sua vez, não ousava questionar os desmandos do casal, pois em outros tempos, estes lhe saldaram uma vultuosa dívida, de maneira que havia gratidão apesar da discordância.
Anabel fora proibida de falar por todo o trajeto e teve que calar inclusive o pranto ao ouvir a história que foi contada a sua mãe. Podia não ser a melhor, mas ainda sim era sua mãe.
Ela tentou balbuciar algumas palavras antes da despedida, mas a voz nem saía, tal era a dor que levava no peito.
Pelas mãos do padrinho, foi entregue à dona do estabelecimento, que imediatamente se afeiçoou dela. Estava salva.
Dona Elisa, era uma matrona que há muito havia perdido a forma e tratava apenas dos assuntos administrativos do estabelecimento. Cuidava para que o padrão da casa jamais caísse. Buscava meninas de fora da cidade e as mais belas. Dramas como o de Anabel, via quase sempre se repetirem e profunda conhecedora da alma humana como era, procurava resgatar-lhes a auto-estima tanto quanto fosse possível, porém não da maneira convencional. Não da maneira ditada pela sociedade. As moças costumavam se especializar em perfeitas senhoras na cama. Quando as portas dos quartos se fechavam, eram elas que mandavam. E eles? Obedeciam de bom grado.
Anabel chegou despedaçada, pois sabia aonde estava pisando. Sabia que se tratava de uma casa de meretrizes, portanto vivia calada e chorosa.
Dona Elisa tratou de reverter o quadro, conversando muito c/ a moça, sem esconder dela seu destino. Ela costumava dizer que a dor não faria mais parte de sua vida. Não a dor física. Ensinou-lhe a arte do sexo e contava qualidades e defeitos de cada um dos clientes da casa, de maneira que Anabel já sabia de antemão com quem se deitaria, como e o porque. Nunca um cliente estreante parava nos braços dela. Era "testado" pelas meninas antes e quando tinha o prazer de optar por Anabel, essa já sabia o tratamento que dispensaria ao cliente.
Anabel tomou forma. Aprendeu a cuidar dos cabelos, a dominar imperfeições com maquiagem e fazer sobressair o que tinha de mais bonito, sua boca.
Nunca mais foi vista sem um batom rubro na boca. Os homens enlouqueciam, quando Anabel beijava-os no cantinho da boca, segredando-lhes no ouvido que seriam os próximos, numa próxima que às vezes não chegava nunca.
Ficou tão boa no assunto, que Dona Elisa ao partir do mundo, deixou a Casa de Minas para todas, porém o bordel mais badalado da cidade seria gerenciado por Anabel, que hoje era conhecida por Mirna.
Anabel colecionava bens e juntou muito dinheiro. Ela jamais saíra da Casa de Minas.
Deitava-se com homens da alta sociedade e que detinham o poder, de maneira, que nunca precisou passar por certas humilhações no banco ou na via pública. Eles eram seus escravos. Faziam de tudo por ela.
Um dia não se conteve. Resolveu procurar sua família. Exatos quatorze anos haviam se passado, ela estava prestes a completar 28 anos e se sentia pronta para encarar a família.
De volta ao lar, triste cena a confrontou. O padastro, completamente arruinado pela bebida, jazia numa cama, só saindo para sentar-se na cadeira de rodas doada pelo padrinho ainda amigo e grato. A mãe, continuava de pé, mais velha lógico, mas lúcida e conformada.
Perdera três dos filhos para tuberculose e o mais velho encontrou casamento com uma moça de sociedade, de maneira, que a única coisa que soube devolver aos pais inconseqüentes foi a indiferença. Os dois ali se encontravam completamente sós.
O padrinho não podia ajudar muito. De vez em quando arrumava uma refeição e mais ninguém aparecia para ajudar. Os amigos de copo sumiram todos ou morreram.
Anabel ao se deparar com aquele triste quadro, nada sentiu pelo padrinho. Nem pena, nem ódio. Só um grande nada.
E dominada por esse nada é que levou a mãe dali.
A mesma mãe que estava prestes a perder a casa, por conta de dívida e que logo estaria morando na sarjeta; a mesma mãe que um dia lhe negou carinho e jogou-a num prostíbulo; a mesma mãe que sempre teve uma atitude egoísta e irresponsável para com os filhos todos, agora seria ajudada não por Anabel, mas por Mirna.
Mirna juntou os trapinhos da mãe e tirou-a de casa à força ajudada pelo motorista.
Tratou da mãe e curou aquela fraqueza, com uma boa refeição, aceio e atenção. E não pediu, Mirna ordenou que a mãe teria uma boa vida daqui prá frente.
Aprenderia a expiar seus atos por intermédio do trabalho.
Seria cozinheira e arrumadeira da grande Casa. Ao recobrar a saúde e o fôlego, se deu por conta aonde havia entrado.
Se deu conta que o marido a essa altura estaria morto ou largado na rua esperando pela morte.
Se deu conta que estava dentro de uma casa de meretrício e que seria escrava das putas que tanto repudiava.
Nesse momento odiou Anabel, sem se dar conta que aquilo era uma ajuda e não uma vingança.
Pois limpou, arrumou e cozinhou. Pois viu a filha se deitar e se servir dos homens mais diversos.
E começou a lembrar de como era frágil e pequenina, e de como fora abandonada por ela própria.
E acordou daquela capa de imprudência e inconseqüência que sempre vestira. Então chorou. Chorou rios e dias.
Chorou por cada minuto de abandono por sua culpa. E soube por intermédio de uma puta que ela fora a grande culpada daquela situação.
Descobriu um pouco da história daquela Mirna fria e sem dó, uma vez que estava proibida de revelar sua identidade.
Assim, as semanas se passaram e Dona Cristina juntou forças suficientes para se perdoar e pedir perdão.
E Mirna ao ver sua mãe arrependida com toda sinceridade, deu por encerrada seu destino na vida.
Foi para o Rio de Janeiro .


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