sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Jandira Aceita

Quando finalmente Jandira entendeu que o que sentia era amor, parou de chamar aquele sentimento de amor de pica.
Desde os tempos de colégio, quando não era correspondida em suas pretensões, aprendeu que doía menos apelidar os sentimentos para se proteger do choro, da decepção, das ilusões não correspondidas.

Jandira conheceu Geraldo há muito tempo e a empatia foi imediata. Talvez ambos sentissem atração um pelo outro, mas seus destinos já estando traçados nos braços de terceiros, não podiam dar vazão a seus desejos.

Então foram anos de uma certa amizade, de cumplicidade diária, de confidências dela, de brincadeiras dele, daquelas leituras de pensamento que só as almas próximas sabem se utilizar.

Geraldo era o tipo que despertava atenção por onde passava, não só pela beleza, mas por seu jeito despachado, brincalhão e humilde... mesmo por baixo de suas roupas caras. Esse jeito humilde típico dos que não tiveram descanso a vida toda, mas dos que foram talhados no trabalho, debaixo do labor de sol a lua. Ele havia conquistado o mérito de seu esforço e atingido o topo, muito embora levasse consigo a simpatia dos humildes - mas só Jandira era capaz de enxergar isso.
E assim, Geraldo conquistava com seu sorriso, com sua presença e senso de justiça. Despertava disputas por sua atenção, como se meritório fosse estar em sua companhia.

Gabrielle à la chemise ouverte - Obra de Renoir
Por tudo isso, Jandira se deixara envolver.
E com o passar dos anos, se afastaram pelas circunstâncias da vida mesmo que o carinho fosse grande e recíproco. Para Jandira, ter breves contatos com Geraldo, ou contar-lhe as novidades funcionava como uma lufada de ar fresco em sua rotina.
Riam, se entendiam, almoçavam ou encontravam-se parcas vezes em algum barzinho da cidade para falar da vida. Era muito pouco, muito corrido, muito rápido. Típico das coisas que são muito boas.

Geraldo olhava para Jandira e enxugava suas lágrimas recém roladas do rosto. Adivinhava-lhe os pensamentos, consolava e sempre tinha um lenço no bolso.
As gargalhadas também eram cúmplices e no frescor de uma piada recém-tirada do bolso com ela, tinha o final enfeitado por ele.

Mas não havia envolvimento carnal naquela relação, muito embora Jandira não soubesse conviver com isso muito bem, até que lembrou daquele sonho antigo. Nesse sonho, que tivera ainda saída da adolescência, quando seu coração estava dividido entre dois amores, um anjo de cabelos muito negros, com um abraço de gigante lhe disse que nem um, nem outro preencheriam o espaço de seu coração. Seria ainda um terceiro. Mas que não naquela vida.
Jandira acordara chorando aquele dia, com uma saudade infinita dentro do peito, ansiando pelo encontro, pelo reconhecimento de alguém que poderia ser sua metade. Precisava daquele abraço outra vez, mas ninguém sabia dar.

Nunca abraçara Geraldo daquele jeito. Uma vez sim, mas sentia o incômodo dos olhares, apesar de ser um abraço de 10 minutos como tinham combinado dias antes. Ele cumprira.
E todas as evidências de aquilo não ser uma simples amizade, ela sabia que não era nada além.
Ele? Ele sabia conviver pacificamente com aquele relacionamento querido, sem a típica ansiedade dos que estão perdidos.
De tanto arder-lhe a consciência, de tantos sonhos, de algum pranto pela distância, Jandira aceita que o que sentia era nada mais que amor.
Um amor cândido daquele tipo que passa pela vida, deixa sua marca na idealização do outro e se vai.

Sabia que não mais tocaria aquela face, que nunca teria o corpo dele sobre o seu, ou vice-versa; tinha absoluta certeza que não mais lhe daria o beijo que roubaria sua alma, pois ele tinha medo de sentir mais do que deveriam ambos. Jandira sabia que não mais teria a mão de Geraldo entre seu sexo quente e sedento, portanto aceitara o fato de que esse amor era encantado e platônico. Mesmo tendo quase vergonha de sentir algo assim, afinal, sentia-se velha para tanto... ainda sim, aceitou e mandou a ansiedade embora. Com isso, quase parou de sentí-lo, porque já não lhe apressava nem lhe cobrava a ansiedade de vivê-lo.
Era parte dela... estava ali.

Então, um dia depois de risos ao telefone e daquela conversa escandalosa que mais pareciam xingamentos ao invés de traduzir a saudade de ambos, ela ligou de novo. Sentiu uma imensa euforia ao ter ouvido sua voz do outro lado do continente e transbordando de felicidade disse:

- (...) escuta. Preciso te dizer uma coisa. Sério!
- Fala. Eu tô te ouvindo.
- Eu te amo!

Silêncio.

- Eu também.

1 comentários:

Tutti disse...

Ai, que lindo!!!!

 
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